Caso
Adelir: ativistas realizam manifestações em todo o país
Ato
visa chamar atenção do Ministério Público para a necessidade de
investigação de casos de violência obstétrica cada vez mais
comuns no Brasil.
No próximo dia 11 de abril, grupos de ativistas relacionados à Saúde da Mulher e aos Direitos Sexuais e Reprodutivos Femininos, realizam ato nacional em apoio a Adelir Carmen Lemos de Góes, mulher que foi forçada e coagida pela Justiça da cidade de Torres (RS) a ser submetida a uma cirurgia cesariana.
Várias
cidades estão se mobilizando. A agenda com a programação e o
formato da manifestação de cada local está disponível no blog
http://somostodxsadelir.wordpress.com/ .
Em
Belo Horizonte, o ato será dividido em dois momentos. A partir das
14h haverá uma concentração em frente ao Ministério Público do
Estado de Minas Gerais (Av. Álvares Cabral, 1690 – Lourdes) e
depois das 17h, os manifestantes seguirão para a Praça da
Assembleia Legislativa onde farão panfletagem e ações de
conscientização. Evento no facebook: https://www.facebook.com/events/225517814311575
A
pauta principal do movimento quer deixar claro que a decisão sobre a
forma de nascimento não deveria ter sido tirada do poder da
gestante, uma vez que se trata de um direito assegurado pela
Convenção Americana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é
signatário. Esse grave incidente abre precedente para que, daqui por
diante, qualquer profissional interfira judicialmente na decisão da
mulher, infringindo seu direito e prejudicando o seu protagonismo.
A
autonomia pelo próprio corpo é garantida por lei, está inclusive
descrita no Manual do Usuário do Sistema Único de Saúde. A conduta
da equipe médica, ao denunciar Adelir, fere ainda os princípios da
Bioética Médica.
Segundo
Adelir, que já havia sido induzida a outras duas cesáreas com os
filhos mais velhos, era importante que dessa vez ela se sentisse
participante ativa do próprio parto. Ela conta que já estava com
nove centímetros de dilatação e com contrações ritmadas de cinco
em cinco minutos, quando chegaram à sua casa um oficial de justiça
e duas viaturas policiais e a levaram, sob ameaça de prisão, ao
Hospital Nossa Senhora dos Navegantes.
Na
tarde daquele dia (31/3), Adelir havia procurado o hospital por já
estar sentindo algumas dores. Na ocasião, a médica ordenou que ela
se internasse para uma cirurgia cesariana imediatamente. No entanto,
Adelir assinou um termo de responsabilidade e voltou para casa com o
objetivo de esperar o trabalho de parto, já que o monitoramento
fetal apresentou bons resultados no quadro clínico da mãe e do
bebê. Além disso, ela havia feito todo o pré-natal (total de nove
consultas) e realizado todos os exames requisitados. Todos
apresentavam normalidade e a gestação não era de risco.
Inconformada
com a escolha da gestante, a médica decidiu acionar a Justiça,
alegando risco iminente de morte. As justificativas que apontavam
urgência, no entanto, estão sendo questionadas por boa parte da
comunidade médica do país. Segundo estudos clínicos atualizados e
em acordo com as evidências científicas, os motivos alegados: duas
cesarianas prévias, bebê em posição podálica (uma variação da
pélvica - sentada) e idade gestacional estimada em 42 semanas; não
são indicações de cirurgia imediata, a menos que mãe ou bebê
estivessem apresentando algum sinal de sofrimento, o que não foi
diagnosticado pelos exames realizados pela própria instituição.
Além disso, o exame, divulgado após o grave incidente, atestou
também que a idade gestacional era, na verdade, de 40 semanas e não
de 42. Fato que corrobora ainda mais para a falta de caráter urgente
da cirurgia indicada pela médica.
Adelir
passou pela cirurgia e a filha nasceu bem, com apgar alto (o apgar é
um exame que avalia o estado do recém-nascido) - o que mostra que
não estava em sofrimento. Durante a cesariana, a parturiente também
não teve assegurado seu direito ao acompanhante. O marido foi
impedido de acompanhar o procedimento. A lei do acompanhante vem
sendo desrespeitada em várias maternidades brasileiras, apesar de
existir desde 2005.
Denúncia e Articulação
A
Artemis, aceleradora social que trabalha pela autonomia da mulher e
seu direito de escolha, com especial atenção à prevenção e
erradicação da violência obstétrica, entrou com uma denúncia
junto a várias instituições. São elas: Secretaria de Justiça e
Direitos Humanos da Presidência da República, Disque Denúncia de
Direitos Humanos, Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara
dos Deputados, Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio Grande
do Sul, Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da
República, Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos de
Porto Alegre e Comissão de Direitos
Humanos da OAB/ Rio Grande do Sul. Na instância local, Adelir está
sendo amparada pela Defensoria Pública da cidade de Torres.
Já
em relação à articulação, desde 2005 a Rede de Mulheres pela
Maternidade Ativa Parto do Princípio vem mobilizando a sociedade
civil e movimentos sociais em defesa dos direitos das mulheres e
direitos humanos. A mobilização alcança o âmbito nacional e
internacional, e agora, também em repúdio ao caso de Adelir e
família. A organização é responsável pela elaboração do dossiê
sobre violência obstétrica entregue à CPMI sobre Violência contra
a Mulher no Brasil em 2013. O documento está disponível para
consulta no site do Senado
Federal: http://www.senado.gov.br/comissoes/documentos/SSCEPI/DOC%20VCM%20367.pdf
.
O
caso também está recebendo atenção de outras esferas
públicas. O deputado federal Jean Wyllys divulgou uma nota
informando que vai solicitar, em caráter de urgência, uma audiência
pública para discutir estes casos, cobrando do Poder Executivo,
através do Ministério da Saúde e da Secretaria de Políticas para
Mulheres, posicionamentos e soluções para a questão.
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